Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 800 mil pessoas cometem atentado contra a vida todos os anos, ou seja, a cada 30 segundos uma pessoa interrompe sua existência, isso significa que até que você tenha terminado de ler esse texto 5 pessoas terão se suicidado. E pior: estima-se que, para cada suicídio consumado, ocorram entre 10 e 25 tentativas.Mas a pergunta que deve ser feita é: O que leva uma pessoa a cometer tal transgressão contra sua própria existência?

Quase sempre observamos que o risco de suicídio começa a partir de experiências adversas precoces e ao longo da vida, estas adversidades vão se acumulando e desencadeando com o decorrer do tempo sofrimento psíquico grave, comportamentos de risco, tentativas de suicídio e ao suicídio, com seu desfecho trágico e irreversível. A razão pela qual é imprescindível levar esse problema em consideração e de maneira séria é que o suicídio há muito tempo deixou de ser um evento isolado que ocorre repentinamente, passando a ser um evento previsível resultante de anos de sofrimento acompanhado de tentativas frustradas e desesperadas de superá-lo.

Não raro aqueles que atentam contra sua própria vida não estejam em busca de dizimar sua existência, mas sim, muitas vezes, sua principal vontade é apagar sua dor, seu sofrimento, acabar com as lágrimas derramadas perante situações que para si são insustentáveis e mantenedoras deste ciclo angustiante e nefasto para sua vivência. Outras vezes, buscam a condição do não ser, ou seja, seu completo aniquilamento e a destruição de toda sua história, contudo a morte em si não proporciona nenhuma das suas situações. Na primeira situação, ela interrompe o sofrimento ao tirar o dom da vida, todavia as condições que lhe causavam sofrimento continuam a existir no mundo, mas sem a sua existência. Na segunda situação, o ser, mesmo deixando de existir, permanece em vida na história e na memória de todos aqueles que se relacionaram com ele.

Nesse contexto é válido recordar os ensinamentos e experiências vividas por Victor Frankl, prisioneiro dos campos de concentração nazistas na 2ª Guerra Mundial. Frankl observou que dentre os prisioneiros, aqueles que sobreviveram conservando sua lucidez eram justamente aqueles que possuíam um ideal de vida, uma motivação maior que os fazia enfrentar a dura rotina de um prisioneiro de guerra, que nos próprios relatos de Frank incluíam trabalhar em temperaturas extremas de até -20 graus sem luvas e sendo alimentado uma única vez por dia com uma mistura de água a qual era dado o nome de sopa e recebendo um pequeno pedaço de pão.

Mas por que os prisioneiros não se suicidavam logo de uma vez para por fim a essa angústia horrível? Foi então que Frankl percebeu enquanto prisioneiro que o que move o homem a um ideal superior não é a sede de prazer ou a busca pelo poder, mas sim o sentido da vida, este individual para cada ser humano, então, para Frankl o que diferenciava os indivíduos que batalhavam arduamente pela sua sobrevivência em condições extremas daqueles que se deixavam abater era um propósito que mantinha a chama da vida acessa, uma meta que não poderia deixar de existir em hipótese alguma.

Em linhas gerais, diante de um sujeito que se decide pela morte, o que pode um psicólogo fazer? Primeiramente, acolher a dor, o sofrimento, a queixa do paciente, por meio de uma escuta atenta e interessada, sem julgamentos ou expectativas. Desta maneira, o tratamento deverá possibilitar que a pulsão de morte, esse apetite pela morte, dê lugar ao desejo de saber, permitindo o reaparecimento do sujeito que fora abolido pelo ato. A partir daí, que ele possa encontrar outras formas de expressar seu sofrimento, que não no ato suicida, mas sim dando um novo sentido à vida, uma vida em que exista lugar para novos ideais, para que seus sonhos resplandeçam e se repercutam em vivências.